Depressão (silenciosa): quando o sofrimento não é reconhecido

Existe um modo de sofrer que quase não faz barulho. Ele não interrompe a rotina, não impede o trabalho, não afasta as pessoas. Ainda assim, dói. É um sofrimento que acontece por dentro, enquanto a vida segue por fora. Nem toda depressão se apresenta em forma de isolamento, tristeza ou choro constante. Há quem continue vivendo, trabalhando e se relacionando, fazendo o que precisa ser feito, enquanto carrega um cansaço que não passa, uma perda de prazer difícil de explicar, uma sensação persistente de vazio. A vida anda, mas algo dentro já não acompanha o mesmo ritmo. Na clínica, encontro com frequência pessoas que chegam dizendo que “não sabem exatamente o que têm”, apenas sentem que algo não vai bem. Como não há sinais evidentes, esse sofrimento costuma ser confundido com estresse, desânimo ou sobrecarga. E assim, vai sendo suportado em silêncio, como se não fosse legítimo o suficiente para pedir cuidado. Talvez uma das partes mais difíceis desse processo seja justamente não reconhecer o próprio sofrimento. Quando não se dá nome ao que se sente, a dor permanece, solta, ocupando espaços internos sem encontrar lugar. Reconhecer não é rotular — é organizar a experiência, é permitir que aquilo que machuca possa ser visto, compreendido e validado. Cuidar da saúde mental, muitas vezes, começa no momento em que alguém se permite dizer “o que eu sinto importa”. Na clínica, esse reconhecimento abre caminhos possíveis, singulares, respeitosos com a história de cada um. Porque seguir funcionando não significa, necessariamente, estar bem. E todo sofrimento, mesmo o mais silencioso, pode e dever ser escutado.

Janaina Rabelo de Oliveira

2/5/20261 min read

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